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Taubaté, o curral eleitoral onde bajular o governador vale mais que conhecer a cidade

Em ano eleitoral, a cidade ganha aquele perfume rançoso de virtude encenada. Tudo vira “compromisso”, “agenda”, “escuta”, “diálogo”. E o que antes era problema concreto, vira cenário para fotografia com fundo desfocado e sorriso treinado.

Miriam Tellini | Data: 27/04/2026 10:04

Taubaté, como tantas cidades do interior, conhece bem essa liturgia de campanha, quando o governador aparece, boa parte dos candidatos entra em combustão de entusiasmo, como se tivesse descoberto a pólvora institucional. É o velho espetáculo da reverência; tem postulante que não conversa com o povo, conversa com o verniz do poder. E aí se vê o vexame completo, porque a política local passa a se comportar como auditório de comitiva, não como espaço de cobrança. Não raro, o candidato mal conhece a cidade que quer governar, mal domina o mapa dos problemas, mal sabe distinguir urgência de slogan, mas já está pronto para a babação de ovo diante do governador, como se isso lhe rendesse carimbo de maturidade. Não rende. Só expõe. Expõe a precariedade intelectual de quem quer cargo sem ter a coragem de sustentar uma posição.

É nesse ponto que a tragédia da Dutra, com a morte de Dennis Willian Andrade da Silva, de 30 anos, após uma perseguição que começou em Pindamonhangaba e terminou em Taubaté, deixa de ser apenas um fato policial e passa a ser uma radiografia moral da política local. Não é um episódio isolado. Há registros recentes de mortes por atropelamento e ocorrências graves ao longo da rodovia no Vale do Paraíba, incluindo casos em Taubaté, Pindamonhangaba, Lorena e São José dos Campos, além de perseguições que terminaram em prisão em trechos como Caçapava. A Dutra, que deveria ser apenas passagem, tem se comportado como corredor de risco. E, ainda assim, a resposta institucional insiste em soar protocolar demais para a gravidade do que acontece.

A pergunta, então, não é só “quem fiscaliza?”. Fiscalização existe. A Polícia Rodoviária Federal mantém atuação permanente no trecho, com unidade operacional em São José dos Campos e plantão 24 horas. A concessionária responsável pela rodovia opera com Centro de Controle, monitoramento por câmeras, ambulâncias, guinchos e equipes de inspeção também 24 horas por dia. Estrutura há. Presença há. O que não há, com a mesma consistência, é resultado capaz de impedir que perseguições atravessem quilômetros e terminem em morte. E é aqui que a discussão deixa de ser técnica e passa a ser política, no pior sentido da palavra.

Porque, diante disso, o que se vê em Taubaté é uma multidão de pretendentes a mandato que fala de gestão como quem repete um comercial de televisão. Falam com a solenidade de quem não estudou o assunto e, mesmo assim, quer ser tratado como especialista. E quando o governador pisa na cidade, o ar fica ainda mais denso de subserviência. Tem candidato que se ajoelha sem nem perceber que está se rebaixando. A bajulação é tão automática que já não parece cálculo; parece vocação. E vocação para a subalternidade é uma das coisas mais tristes da política brasileira.

Aí está o ponto que incomoda, a conversa pública vai se tornando uma competição de afagos, não de projetos. Em vez de discutir a segurança no entorno da Dutra, a integração entre órgãos, a prevenção de mortes e o papel de cada ente — município, Estado, União —, prefere-se a coreografia da obediência. E convém lembrar o básico que muitos fingem ignorar, a Dutra é uma rodovia federal. O patrulhamento ostensivo é atribuição da Polícia Rodoviária Federal. A prefeitura atua no que está sob sua circunscrição, vias urbanas, acessos, sinalização local, integração e prevenção. Pode ajudar, e deve. Mas não tem poder para, sozinha, evitar o que acontece dentro de uma rodovia federal. Transformar isso em palanque é, no mínimo, má-fé intelectual.

Mas o efeito dessa encenação é devastador, a cidade fica menor, o debate fica mais raso, e o eleitor é tratado como plateia de um teatro em que todo mundo finge entender muito e compreender pouco. Quem não conhece a cidade posa de conhecedor; quem conhece de verdade costuma falar menos e cobrar mais. E talvez seja justamente isso que incomode, cobrança exige conteúdo, e conteúdo não se improvisa com fotografia ao lado de autoridade.

No fundo, a grande doença não é apenas a violência na rodovia. É a pobreza cívica de quem transforma o governador em personagem de culto e o eleitor em figurante. Taubaté não precisa de candidatos que saibam fazer reverência com eficiência. Precisa de gente que tenha coragem de enfrentar o óbvio, que rodovia federal não se resolve com discurso municipal de ocasião, segurança não melhora com visita ensaiada, e cidade nenhuma merece ser governada por quem aprende o nome dos problemas só quando a câmera já está ligada. Em ano eleitoral, a máscara costuma cair pelo excesso de maquiagem. E poucos espetáculos são tão reveladores quanto o candidato que não conhece a cidade, mas conhece o ângulo da foto; o político que não entende a demanda, mas entende a deferência; a liderança que não enfrenta o governador, mas quer ser vista por ele. Tudo isso diz mais do que qualquer slogan. Diz que o problema não é só de trânsito, segurança ou gestão. É de caráter público. E, quando a política se curva demais, o que sobra para a população é justamente o contrário da proteção o que sobra a sensação de estar entregue a gente que sabe bajular melhor do que governar.

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