Tremembé, o Vale do Paraíba e a covardia organizada
A pichação "Parem de matar mulheres" em Tremembé é apresentada não como vandalismo, mas como um diagnóstico brutal da negligência institucional frente ao feminicídio. O texto denuncia a precariedade da rede de proteção no Vale do Paraíba, onde a ausência de delegacias especializadas em cidades pequenas e as limitações de horários de atendimento transformam a segurança feminina em uma "administração de horários".
Se fosse só tinta no muro, era fácil. Lavava, apagava, seguia o expediente e pronto. O problema é que a frase não sai com água nem com nota oficial. “Parem de matar mulheres” não é pichação, é acusação. É o tipo de frase que só aparece quando a realidade já perdeu a vergonha de existir. Em Tremembé, ela não surgiu do nada, surgiu do acúmulo. Do silêncio que protege agressor, da demora que expõe vítima, da conveniência de tratar violência como assunto doméstico até virar cadáver. O escândalo não é o muro escrito. O escândalo é precisar escrever.
A pichação em Tremembé não é a notícia. É a prova. Quem resolve gastar energia indignado com a tinta no muro, e não com a frase escrita ali, já escolheu o conforto da superfície. “Parem de matar mulheres” não é uma intervenção estética, não é frase de efeito, não é rebeldia simpática. É o grito bruto de um país que já conhece o mapa da violência contra a mulher e ainda assim insiste em distribuir proteção como se estivesse fazendo favor. Tremembé é um município de 51.173 habitantes no Censo de 2022, com área de 191,094 km², densidade de 267,79 habitantes por km² e PIB per capita de R$ 21.334,89 em 2023. Não é um buraco no mapa. É um retrato pequeno, mas muito nítido, do Brasil que continua deixando a violência correr dentro da casa e correndo atrás da vítima depois.
O dado mais indecente está na estrutura. Na relação oficial da Polícia Civil de São Paulo, Tremembé não aparece como sede de Delegacia de Defesa da Mulher. No recorte do Vale do Paraíba, a lista oficial reúne Jacareí, São José dos Campos, Caraguatatuba, São Sebastião, Ubatuba, Taubaté, Pindamonhangaba, Cruzeiro, Guaratinguetá e Lorena. O governo estadual também anunciou, em março de 2025, sete DDMs com atendimento 24 horas, entre elas São José dos Campos, além de novas salas online em cidades como Caçapava e São Sebastião. Além disso, a única que funciona 24 horas é a de São José dos Campos, em Taubate, por exemplo, está no Google "horário de funcionamento de segunda a sexta das 9h00 as 19h00". Isso é um escárnio, é brincar com a vida. A tradução disso é simples e cruel. Há rede, mas ela não está inteira onde a mulher mora. Há serviço, mas ele não é onipresente. Há discurso, mas o risco continua pedindo deslocamento. E, quando a ameaça já tomou a casa, deslocamento é uma forma elegante de dizer vulnerabilidade.
O Vale do Paraíba conhece essa conta sem precisar de aula. Em 2025, a região registrou 10 feminicídios, contra 14 em 2024, uma queda de 28,5 % que pode até render manchete, mas não rende alívio moral nenhum. O próprio recorte regional mostra que a violência doméstica continua pressionando o sistema, porque a redução das mortes convive com aumento de registros e de pedidos de proteção. O governo paulista fala em expansão da rede e o estado informa alta de 41,7% nas medidas protetivas em 2024, justamente porque a violência não desapareceu. Só mudou de volume em alguns casos. O que continua intacto é o terreno onde ela germina.
E o terreno é social, não acidental. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que 1.568 mulheres foram assassinadas em 2025 no Brasil, o maior número da série histórica, com 13.703 vítimas desde a promulgação da lei do feminicídio. Dos casos analisados, 66,3% ocorreram em residências, 59,4% foram cometidos por parceiros íntimos e 21,3% por ex-parceiros. Não é o desconhecido na esquina que domina essa estatística. É o homem que conhece a rotina, que sabe a senha, que entra pela porta da intimidade e transforma casa em zona de ameaça. O mesmo material mostra que metade dos feminicídios do país acontece em cidades com até 100 mil habitantes, exatamente o tipo de município em que a proteção costuma ser mais rarefeita. E é aí que a vergonha cresce, porque só 5% dessas cidades têm Delegacia da Mulher e apenas 3% têm casa-abrigo. O interior, no Brasil, não é protegido. Ele é muitas vezes administrado na base do improviso.
Tremembé entra nessa engrenagem sem pedir licença porque a engrenagem já estava rodando. O caso da adolescente de 16 anos que teve o cabelo raspado pelo ex-namorado, em 2023, em Tremembé, não é episódio periférico para ser arquivado como tragédia juvenil. É antecâmara. É ensaio da crueldade. É controle travestido de ciúme, humilhação vendida como briga, violência tratada como drama de relacionamento até virar algo pior. O agressor, naquele caso, ainda verbalizou que “terminaria o serviço”. É assim que a violência fala antes de matar. Primeiro ela diminui a vítima. Depois isola. Depois ameaça. Depois corrói a noção de limite. O Brasil conhece esse roteiro de cor, mas ainda finge surpresa quando ele termina do jeito mais previsível possível.
Por isso a pichação em Tremembé incomoda tanto. Porque ela é feia, ilegal e, ainda assim, mais honesta do que muita nota oficial. A frase não está pedindo licença para ser bonita. Está acusando uma paisagem social em que a mulher precisa atravessar município, horário e burocracia para encontrar acolhimento, enquanto o agressor atravessa a sala, a intimidade e a rotina sem precisar de senha. O Vale do Paraíba vive entre cidades médias e pequenas, circulação intensa e proteção desigual. A violência, nesse ambiente, ganha uma vantagem cruel, ela fica perto de todo mundo e, ao mesmo tempo, longe o bastante do sistema para atrasar a resposta. Quando a rede falha, o medo vira hábito. Quando o hábito se instala, o corpo da mulher passa a viver numa espécie de permissão informal para o desastre.
No fim, o que Tremembé expôs não foi uma ousadia de muro. Foi a pobreza moral de uma estrutura que já sabe onde o problema está, já sabe como ele começa e já sabe como ele mata, mas ainda trata a proteção como se fosse uma administração de horários. O Estado paulista diz ter ampliado a rede, o governo afirma avançar em medidas protetivas, a polícia publica listas, o país produz estatísticas, e mesmo assim a mulher continua sendo empurrada para a margem da urgência. A pichação grita porque a ordem institucional fala baixo demais. E fala baixo demais porque, no fundo, ainda não decidiu que parar de matar mulheres não é slogan de campanha. É obrigação mínima de civilização.
E enquanto isso não for tratado como obrigação, e não como pauta, o país vai continuar fazendo o que sempre fez melhor nesse assunto: reagir depois, lamentar depois, investigar depois e esquecer depois. A diferença é que, de vez em quando, alguém escreve antes. E quando chega ao ponto de precisar escrever num muro para ver se alguém escuta, não é a cidade que está sendo vandalizada. É a própria ideia de proteção que já foi destruída faz tempo. A violência contra a mulher no vale do Paraíba, virou uma piada sem graça e quem morre (sem rir), são as mulheres.