A quem serve a "Defesa da Família" quando a mulher é esquecida?
Em Taubaté, a política deixou de parecer uma sucessão de fatos isolados e passou a revelar um padrão preocupante: o discurso da defesa da família e da moral convive, na prática, com a demora ou o bloqueio de pautas essenciais, com tensões na relação com os servidores e com suspeitas que atingem a própria credibilidade da gestão pública. O resultado é uma cidade em que a retórica se impõe com solenidade, mas a coerência institucional falta justamente onde mais deveria existir.
Em Taubaté, já não se trata de episódios isolados, ruídos administrativos ou divergências pontuais. O que se desenha é um padrão e padrões, quando se repetem com essa consistência, deixam de ser coincidência e passam a ser método. A cidade assiste a uma coreografia política em que o discurso é elevado, quase solene, mas a prática é rasteira, fragmentada e, sobretudo, seletiva.
A chamada Frente Parlamentar da Família nasce sob o signo da virtude. Fala-se em proteção, em valores, em vida. É um vocabulário cuidadosamente escolhido, quase imune à crítica, afinal, quem ousaria ser contra a família? Mas é precisamente aí que reside o problema, quando a política se abriga em conceitos incontestáveis, ela ganha liberdade para agir sem a mesma exigência de coerência. E em Taubaté, a coerência não apenas falha ela se ausenta.
É impossível ignorar que o mesmo ambiente político que ergue essa bandeira foi decisivo para travar, esvaziar ou, no mínimo, retardar o avanço de um Plano de Enfrentamento à Violência contra a Mulher. E aqui não há espaço para eufemismo elegante, tratar a proteção de mulheres como matéria ideológica é uma escolha. Não é descuido, não é excesso de zelo técnico, não é prudência legislativa. É escolha. E toda escolha política revela prioridade, ou a falta dela.
Há, portanto, uma inversão moral em curso. A “defesa da família” é proclamada em tom alto, enquanto a proteção concreta de mulheres, que são parte essencial dessas mesmas famílias, é empurrada para o terreno da desconfiança, da revisão interminável, do debate que nunca se encerra. É uma retórica confortável, porque performática porque protege-se a ideia abstrata de família enquanto se hesita diante da realidade concreta da violência. E essa hesitação, convém dizer, também mata ainda que sem manchete imediata.

No campo dos servidores públicos, a lógica se repete com outra linguagem. Aqui, o discurso abandona o tom moral e adota a aparência técnica. Fala-se em ajustes, correções, adequações legais. Mas, sob essa camada de formalidade, o que emerge é uma gestão que reage mais do que conduz. Direitos são rediscutidos depois de anos de prática, decretos surgem para corrigir o que não deveria ter sido desorganizado, e o servidor, elo mais previsível e mais vulnerável da máquina, torna-se variável de ajuste.
Não se trata de negar a necessidade de revisão administrativa. Trata-se de questionar o modo como ela é feita. Quando a previsibilidade desaparece, quando a regra muda no susto, quando o diálogo cede lugar à imposição, o que se tem não é governança e sim improviso institucional. E improviso, na gestão pública, nunca é neutro ele sempre recai sobre quem depende do sistema para viver.
Mas é no campo das contratações públicas que a narrativa encontra seu ponto mais sensível. As suspeitas de irregularidades em licitações e ainda que submetidas ao devido processo legal introduzem um elemento que nenhuma retórica consegue neutralizar: a dúvida. E a dúvida, quando se instala na relação entre poder público e sociedade, corrói tudo ao redor.
Porque não há contradição mais difícil de sustentar do que aquela entre o discurso moral e a prática administrativa questionada. A política que se apresenta como guardiã de valores precisa, mais do que qualquer outra, ser exemplar na gestão. Quando não é, o que se perde não é apenas a credibilidade de um governo, mas a própria legitimidade do discurso que ele sustenta.
O que une, portanto, a Frente da Família, os conflitos com servidores e as suspeitas em licitações não é apenas a interseção de atores ou a simultaneidade dos fatos. É algo mais profundo e mais preocupante é uma forma de exercer poder baseada na estética da virtude e na fragilidade da prática. Fala-se com convicção, decide-se com hesitação e administra-se com improviso.
Taubaté, neste momento, não enfrenta apenas problemas administrativos ou divergências políticas. Enfrenta um desalinhamento entre aquilo que se proclama e aquilo que se entrega. E esse tipo de desalinhamento é particularmente perigoso porque não produz apenas ineficiência, também produz cinismo. A população deixa de acreditar não só nas soluções, mas nas próprias palavras.
No fim, a questão central não é quem fala em nome da família, da ordem ou da moral. A questão é quem, diante das escolhas concretas, age com responsabilidade compatível com esse discurso. Porque governar não é declarar princípios; é sustentá-los quando eles custam. E, até aqui, o que se vê em Taubaté é uma política que prefere o conforto da narrativa à exigência da coerência.