Taubaté e o Reino do Mato
Em Taubaté, governa-se com roçadeira e câmera: corta-se o mato, grava-se o vídeo e chama-se isso de gestão. A cidade virou vitrine de “antes e depois”, onde o resultado dura o tempo da postagem. No enquadramento, tudo funciona; fora dele, a realidade segue indisciplinada. A zeladoria, que deveria ser rotina silenciosa, virou estrela do espetáculo, menos por importância real e mais por conveniência narrativa. Enquanto isso, a segurança pública fica nos bastidores: menos recursos, números piores e nenhuma chance de render imagem bonita. O mato aparece. O problema, não.
O rei do mato governa tranquilo. A cada nova capina, a cidade aparece limpa na foto, organizada no enquadramento, funcional na superfície. Tem sempre um vídeo, geralmente no meio do mato recém-cortado, com aquele ar de missão cumprida. A cena é quase sempre a mesma. Muda o bairro, muda o ângulo, mas o roteiro segue firme. Enquanto isso, o que não sai na imagem segue existindo, fora do enquadramento, sem filtro e sem legenda.
Os números do orçamento de Taubaté ajudam a colocar a discussão no lugar certo. Em 2026, a prefeitura prevê R$ 123,22 milhões para Serviços Públicos, onde está incluída a zeladoria urbana, e R$ 43 milhões para Segurança Pública. Em 2025, foram R$ 140 milhões e R$ 46,8 milhões, respectivamente.
Educação e saúde continuam muito acima disso. Em 2025, a educação teve R$ 519,7 milhões e a saúde R$ 473 milhões. Ou seja, a zeladoria não é, nem de longe, a principal área do orçamento, mas ainda assim recebe mais do que a segurança. Na prática, a manutenção urbana representa algo entre 6% e 8% da receita municipal, enquanto a segurança fica abaixo de 3%. O mato pode até ser prioridade visual, mas não é onde está o grosso do dinheiro, o que torna ainda mais curioso o tamanho do barulho feito em torno disso.
Esse desenho não é novo. Já havia cortes em áreas importantes antes, inclusive em serviços públicos e saúde. Mas o que chama atenção agora não é só o valor em si, e sim a forma como a zeladoria passou a ocupar o centro do discurso da gestão. Quando o básico vira manchete diária, com direito a gravação no meio do capim, é sinal de que o restante anda com dificuldade de aparecer.
Quando se olha para outras cidades, a diferença de abordagem aparece com mais clareza.
São José dos Campos tem um orçamento muito maior, cerca de R$ 4,8 bilhões em 2025. Desse total, R$ 311,1 milhões foram destinados à manutenção da cidade e R$ 63,1 milhões à proteção ao cidadão. É mais dinheiro em termos absolutos, mas também é uma estrutura que mantém a segurança como política organizada, com investimento contínuo e resultados ao longo do tempo. A cidade não precisa de vídeo no meio do mato para provar que está funcionando.
Pindamonhangaba, com orçamento de aproximadamente R$ 1,1 bilhão, distribui suas maiores fatias entre saúde, educação, administração e serviços públicos. A zeladoria aparece como parte desse conjunto, não como eixo isolado. Funciona, acontece, mas sem virar cenário.
Tremembé, menor, com orçamento na casa dos R$ 200 milhões, naturalmente tem valores mais baixos, mas costuma manter proporções relevantes para manutenção urbana dentro da realidade local. Mesmo com menos recursos, não há necessidade de transformar rotina em performance.
Já Ubatuba, com orçamento próximo de R$ 1 bilhão, apresenta um dado importante. A cidade registrou, de 2024 para 2025, queda significativa em crimes graves. Os estupros caíram de 54 para 9 casos. Os roubos foram de 193 para 88. Isso aconteceu mantendo a zeladoria, mas com foco claro em segurança pública. Ou seja, dá para sair do mato e entrar no problema.
Em Taubaté, o cenário é outro.
Dados da Secretaria de Segurança Pública mostram que as mortes violentas passaram de 24 em 2024 para 27 em 2025. Os casos de estupro subiram de 43 para 52. Os roubos caíram de 624 para 467, o que é um dado positivo, mas os furtos ficaram praticamente no mesmo nível, acima de três mil ocorrências.
O resultado é um quadro desequilibrado. Há melhora em crimes patrimoniais, mas aumento em crimes mais graves, que impactam diretamente a sensação de segurança da população. Não é o tipo de dado que costuma aparecer com o prefeito sorrindo ao lado da roçadeira.
Na região, Taubaté não está isolada. Outras cidades também enfrentam problemas semelhantes. Ainda assim, há exemplos próximos de políticas mais eficazes, com redução consistente de indicadores, o que reforça que o resultado depende de prioridade e estratégia, não de cenário.
Dentro desse contexto, o orçamento da própria prefeitura mostra uma redução na área de segurança. De 2025 para 2026, houve corte de cerca de R$ 5 milhões. Enquanto isso, a zeladoria segue com valores mais altos e com maior visibilidade na comunicação oficial. Menos dinheiro para segurança, mais presença no meio do mato. A equação é simples.
Ao longo do mandato do prefeito Sérgio Victor, a ênfase nas ações de limpeza urbana se tornou recorrente. Capina, poda e conservação aparecem como destaques frequentes. Sempre com registro, sempre com narrativa. São serviços necessários, mas que fazem parte da rotina administrativa de qualquer cidade. Não são inovação, não são diferencial, não são política estruturante.
O problema não está na execução da zeladoria. Está na centralidade que ela passou a ocupar, especialmente quando os dados mostram que a segurança enfrenta aumento em indicadores sensíveis e redução de recursos. É uma escolha de foco. E toda escolha de foco implica deixar outras coisas em segundo plano.
Os números deixam claro que Taubaté gasta mais com manutenção urbana do que com segurança pública. Ao mesmo tempo, cidades que investem de forma mais estruturada em segurança apresentam redução de crimes. A comparação não é retórica, é direta.
Isso não elimina a importância da zeladoria. Mas mostra que ela não resolve, sozinha, os problemas mais complexos da cidade. E insistir em apresentá-la como grande vitrine acaba revelando mais sobre a limitação da agenda do que sobre a eficiência da gestão.
No fim, Taubaté segue limpa na foto. O mato cortado, a calçada varrida, o serviço feito. O vídeo gravado, o roteiro cumprido. Fora dele, os números continuam falando e não têm sido tão generosos quanto a narrativa.