Quando a violência não termina: saúde mental, abandono institucional e o caso Noelia Castillo
O sofrimento psíquico das vítimas não é efeito colateral, é parte central da violência e expõe a insuficiência da rede de atendimento em Taubaté. O caso de Noelia Castillo evidencia que a violência contra a mulher não se encerra no ato, mas se prolonga no sofrimento psíquico e na ausência de suporte contínuo. Em Taubaté, embora exista estrutura formal de atendimento, os dados revelam sobrecarga, falhas de integração e dificuldade de acesso, comprometendo a efetividade da rede e expondo um problema que é, antes de tudo, de responsabilidade institucional.
A pergunta não é por que uma mulher quis morrer, mas o que aconteceu antes disso. O caso de Noelia Castillo não se inicia na eutanásia, ele se origina na violência e se prolonga no silêncio institucional, na fragilidade das estruturas de acolhimento e na incapacidade do Estado de tratar a saúde mental como dimensão central da proteção às vítimas. Quando uma mulher deixa de desejar a própria continuidade da vida, não se está diante de um ato isolado, mas do resultado de um processo de deterioração progressiva, marcado por sofrimento psíquico e ausência de respostas eficazes.
A depressão, frequentemente tratada de forma superficial no debate público, é uma patologia reconhecida, com impacto funcional severo e potencial letal. Quando associada à violência, especialmente à violência sexual, ela não pode ser compreendida como um desdobramento secundário, mas como uma extensão direta do dano sofrido. O trauma não se limita ao momento do crime. Ele reorganiza a percepção de mundo, compromete vínculos, altera a capacidade de funcionamento e instala um estado contínuo de vulnerabilidade psíquica.
Há uma distorção recorrente na forma como a violência contra a mulher é tratada. Reduz-se o problema ao registro formal da ocorrência, como se o encerramento jurídico fosse suficiente para restaurar a vida da vítima. Não é. A violência persiste em camadas menos visíveis, porém mais duradouras, especialmente quando não há suporte adequado para o enfrentamento do sofrimento mental decorrente.
No Brasil, o aumento das notificações de violência indica não apenas a dimensão do problema, mas também uma maior busca por ajuda. No entanto, essa ampliação da demanda não tem sido acompanhada por um fortalecimento proporcional da rede de atendimento. O resultado é um sistema que recebe, mas não sustenta, que acolhe pontualmente, mas falha na continuidade.
Em Taubaté, esse cenário se materializa de forma concreta. A rede de assistência social conta com unidades de CRAS distribuídas territorialmente, responsáveis pelo acompanhamento de famílias em situação de vulnerabilidade. Dados recentes indicam que o CRAS Bagé realizou mais de 1.200 atendimentos técnicos em poucos meses e mantém cerca de 4 mil famílias cadastradas. O CRAS São Gonçalo, por sua vez, registra mais de 3 mil atendimentos individuais em um ano, também com aproximadamente 4 mil famílias referenciadas. Esses números não evidenciam apenas atuação, evidenciam saturação.
No campo da saúde mental, a situação segue a mesma lógica. O CAPS II do município realizou mais de 8 mil atendimentos em um período de quatro meses, com equipe limitada diante de uma demanda crescente e contínua. A existência de CAPS I e CAPS AD amplia a cobertura formal, mas não resolve o problema da sobrecarga nem da fragmentação do cuidado. O volume de atendimentos indica uma rede ativa, porém tensionada, operando no limite da sua capacidade.
A questão central não está na ausência absoluta de serviços, mas na insuficiência estrutural e na descontinuidade do atendimento. O acesso inicial ocorre, mas não se converte, de forma consistente, em acompanhamento prolongado, especialmente nos casos que envolvem trauma psicológico. A vítima ingressa na rede, mas encontra barreiras para permanecer nela com suporte adequado. A falta de integração entre assistência social, saúde e segurança pública intensifica essas lacunas, comprometendo a efetividade do atendimento.
Outro fator relevante é a baixa difusão de informação. A rede existe, mas não se comunica de forma eficiente com a população. Muitas mulheres não sabem onde buscar ajuda, não compreendem os fluxos de atendimento e, diante dessa opacidade, acabam retardando ou abandonando a busca por suporte.
As consequências desse cenário são previsíveis. O sofrimento psíquico se prolonga, se intensifica e se cronifica. A violência deixa de ser um evento e passa a constituir uma condição persistente na vida da vítima. Sem acompanhamento contínuo, sem escuta qualificada e sem articulação institucional, o risco de agravamento da saúde mental aumenta de maneira significativa.
O caso de Noelia Castillo não deve ser interpretado como exceção, mas como um limite. Ele expõe até onde pode chegar uma trajetória marcada por violência e insuficiência de cuidado. Não se trata de importar um debate estrangeiro, mas de reconhecer padrões que já se manifestam de forma silenciosa no contexto local.
E é nesse ponto que a discussão deixa de ser técnica e passa a ser política.
A insuficiência da rede de atendimento não é um acidente, é resultado de escolha. Escolha de prioridade, de investimento, de gestão e de presença institucional. Quando equipamentos operam sobrecarregados, quando a integração entre setores não se concretiza e quando autoridades se ausentam de espaços públicos de escuta e debate, o que se estabelece não é apenas uma falha operacional, mas uma forma de omissão.
A violência contra a mulher não pode ser tratada como pauta episódica, nem como território de disputa seletiva. Ela exige atuação contínua, técnica e, sobretudo, pública. A ausência em espaços abertos, a falta de transparência e o distanciamento da população fragilizam a confiança no sistema e reforçam a percepção de que o atendimento não é universal, mas condicionado.
E quando a vítima percebe isso, ela recua.
O problema é que o recuo não interrompe o sofrimento. Ele apenas o torna invisível.
Ignorar a centralidade da saúde mental na violência contra a mulher é permitir que o crime continue acontecendo para além do agressor. É aceitar que o dano se perpetue dentro da vítima, sem resposta proporcional do Estado.
Se a estrutura não acompanha a demanda, se o cuidado não é contínuo e se a presença institucional é seletiva, o que se tem não é uma rede de proteção. É um sistema que reage, mas não sustenta.
E, em última instância, isso também é uma forma de violência.