Mais de 55 mil lojas fecham por mês no Brasil: por que o poder público precisa olhar para a Economia de Experiência
Um dado alarmante chama a atenção de quem acompanha a movimentação econômica do país: a cada 30 dias, cerca de 55 mil pontos de venda fecham as portas no Brasil. É o que revela um levantamento da empresa Cortex, com base em dados da Receita Federal e do IBGE. Entre janeiro de 2014 e agosto de 2024, mais de 7 milhões de estabelecimentos comerciais encerraram suas atividades em território nacional.
Esse cenário acende um alerta sobre a necessidade urgente de rever as estratégias de desenvolvimento econômico, especialmente por parte do poder público.
O modelo tradicional de comércio, baseado apenas na venda de produtos, sofre forte impacto da digitalização, da automação e da mudança no comportamento do consumidor. A concorrência com o e-commerce e a falta de planejamento estratégico ainda contribuem para a mortalidade precoce de muitos negócios, especialmente micro e pequenas empresas.
A economia da experiência como resposta
Há tempos venho defendendo um olhar estratégico para o que chamo de Economia da Experiência, um conjunto de setores que envolve turismo, gastronomia, bares, restaurantes, eventos, atividades culturais e de lazer, nos quais o consumidor precisa estar presente fisicamente para vivenciar a proposta.
Diferente do varejo de produtos, essa modalidade não pode ser substituída por um clique ou por um aplicativo de entrega. Um espetáculo ao vivo, uma boa conversa no bar, uma quermesse de rua, um jantar em um restaurante temático, uma exposição artística ou um festival gastronômico não são experiências reproduzíveis em casa. E é justamente isso que os torna poderosos vetores de movimentação econômica.
Essas atividades geram emprego e renda em diversas camadas da sociedade, como garçons, cozinheiros, artistas, fornecedores, técnicos de som, produtores, guias turísticos e motoristas de aplicativo. Além disso, fortalecem o comércio local, valorizam o espaço urbano e promovem o sentimento de pertencimento da comunidade.
É hora de mudar o foco das políticas públicas
Legislações antiquadas que prejudicam o comércio de experiência devem ser revistas. Esses estabelecimentos precisam ser incentivados a ampliar suas atividades, gerando mais emprego e renda.
Diante de um varejo que enfrenta altas taxas de fechamento, já que cerca de 60% das novas lojas encerram as atividades nos primeiros anos, é fundamental que prefeituras, governos estaduais e a União revisem suas prioridades e invistam em setores que promovem vivências, encontros e pertencimento.
Ao fomentar o turismo regional, os calendários culturais, as feiras gastronômicas e os eventos populares, o poder público não apenas movimenta a economia, como também preserva a identidade local, melhora a qualidade de vida e atrai investimentos privados.
Mais do que nunca, precisamos abandonar a lógica de que desenvolvimento econômico se resume a grandes indústrias e grandes centros. O novo motor da economia está nos detalhes da vida cotidiana: num sarau de bairro, num café com música ao vivo, numa festa típica, num evento esportivo, num pôr do sol apreciado com vinho e boa companhia.
Que os números sirvam de alerta. E que a experiência se torne política pública.