Trump usa Bolsonaro como arma em guerra comercial e alavanca popularidade de Lula.
A estratégia capitaneada por Eduardo Bolsonaro pode ajudar Lula na reeleição.
O assunto dos últimos dias é o tarifaço anunciado pelo governo americano sobre produtos brasileiros: uma taxação de 50%, válida a partir de 1º de agosto, segundo nota oficial divulgada.
A supertaxação tem sido o método utilizado pelo presidente dos Estados Unidos para pressionar outros países — já fez o mesmo com Rússia, China e Japão, por exemplo. No caso do Brasil, além do valor extremamente elevado, há um diferencial relevante: um argumento político.
Segundo o governo americano, haveria uma "caça às bruxas" no Brasil e perseguição ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Ocorre que Trump, ao usar esse argumento, certamente influenciado pelo deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro, tenta mobilizar apoio popular para a medida, que até aqui só foi defendida publicamente pelo próprio deputado, seu entusiasta e porta-voz.
A estratégia busca transformar um motivo político bolsonarista em clamor popular, com o objetivo não apenas de pressionar pela anistia de Bolsonaro, seus coautores e partícipes, mas, sobretudo, de forçar o governo brasileiro a recuar nas medidas contra as Big Techs e as empresas de cartão de crédito.
O governo americano acusa o Brasil de promover "inovações suspeitas" no campo dos pagamentos eletrônicos — uma crítica velada ao amado PIX, sistema de transferência bancária instantânea e sem taxas.
O PIX movimenta trilhões de reais no Brasil e provocou uma queda no uso dos cartões de crédito. Ainda assim, somos o segundo maior mercado consumidor do mundo, e as maiores empresas do setor são americanas, que alegam estar perdendo espaço. Vale lembrar: mais de 60 milhões de brasileiros não têm cartão de crédito, mas utilizam o PIX diariamente.
As Big Techs temem a necessária regulamentação proposta pelo governo brasileiro, sobretudo no que se refere aos algoritmos que fomentam a dissuasão e a manipulação de conteúdo.
Trump não está interessado em Bolsonaro. Toda a movimentação é uma manobra para proteger os interesses comerciais americanos. O presidente americano não é tímido em ser déspota.
O governo brasileiro reagiu de imediato. Pediu negociação, mas considera aplicar a reciprocidade tarifária e, além de regulamentar as Big Techs, agora também cogita taxá-las.
Uma pesquisa da Quaest, divulgada nesta semana — e que sequer aborda diretamente a intenção americana de sufocar o PIX — mostra uma melhora na popularidade do governo. Lula lidera todos os cenários de primeiro turno para 2026 e venceria Bolsonaro e outros adversários em um eventual segundo turno, com exceção do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), com quem empataria.
O levantamento também aponta um efeito negativo da taxação de 50% anunciada por Donald Trump sobre a imagem de Bolsonaro e Tarcísio. Os dados mostram reversão nas curvas de avaliação: a aprovação de Lula, que vinha em queda desde janeiro, voltou a subir; enquanto sua reprovação, em alta desde outubro, começou a cair.
Conhece a expressão “o tiro saiu pela culatra”? Pois bem, saiu.