Trump & Musk, eu avisei.
O divórcio político mais previsível dos últimos anos aconteceu mais rápido do que se esperava.
Longe de puxar a brasa para a minha
sardinha, mas eu disse desde o começo do ano — inclusive está gravado em uma
das minhas participações no podcast Arena T7 — que o casamento entre
Trump e Musk não duraria muito.
O que me impressionou foi ver diversos
correspondentes internacionais e cientistas políticos surpresos com a crise
entre a SpaceX/Tesla e o governo. Onde está a surpresa?
Trump e Musk estão em lados opostos.
Quando se está no governo, decisões e políticas adotadas podem interferir
diretamente em grandes empresas. Em tese, é preciso buscar o bem comum e
alinhar essas políticas aos grandes setores da sociedade — suas grandes
empresas.
Mas, quando se é uma multinacional de
bilhões de dólares, tudo vira número: um gráfico deve ser o menor possível,
enquanto outro deve ser o maior possível.
Eles podem concordar com cortes de
gastos, política migratória, Israel e até o suposto genocídio na África do Sul.
Elon Musk era considerado um dos principais aliados de Donald Trump, chegando
até a liderar um departamento chamado “DOGE” (Department of Government
Efficiency) dentro do governo Trump.
Tudo ia bem até o “One Big
Beautiful Bill”.
O pacote de gastos e incentivos
proposto por Donald Trump, que supostamente focaria em beneficiar setores
industriais tradicionais (como petróleo, carvão, aço e defesa), com cortes de
subsídios e contratos para empresas consideradas “antipatrióticas” ou “politizadas”,
atingiria, indiretamente, Elon Musk.
O plano previa a eliminação de
créditos fiscais para veículos elétricos e energia limpa, o que impactaria
diretamente a Tesla e a SolarCity — empresas do grupo Musk que dependem
parcialmente desses incentivos. Haveria também uma revisão dos contratos governamentais
com empresas que, segundo ele, “usam dinheiro público para sabotar a América”.
Com isso, a SpaceX poderia ser afetada em projetos ligados à NASA, ao Pentágono
e ao programa militar do Starlink.
A reação do mercado foi forte: as
ações da Tesla caíram cerca de 14%.
Na prática, Musk recuou nas ofensas e
acusações, apagou publicações e se disse disposto a retomar o diálogo,
inclusive por meio de contato com o vice-presidente e com o chefe de gabinete.
Trump respondeu positivamente, dizendo
que o gesto foi “muito gentil” e que ainda pretenderia manter contratos como o
do Starlink. A Casa Branca confirmou que, por ora, não há revisão ou
cancelamento dos contratos existentes entre as companhias de Musk e o governo.
Existe um sábio dito popular que diz:
“dois bicudos não se beijam” — o que, segundo alguns, não tem qualquer relação
com aves. Trump e Musk são dois bicudos: milionários, detentores de forte
influência local e global, cheios de si, personalidades inexoráveis.
Trump sempre esteve incomodado com o
excesso de holofotes sobre Musk e com as insinuações de que quem mandava era o
empresário. Até por isso, um plano que confronta diretamente os interesses do
aliado pode ter como uma das intenções a demarcação de um limite de poder e
força entre eles.
Outra (não) novidade é: enquanto
despreparados brincam de governar, a população é a mais prejudicada.
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