Ano novo, políticas velhas: o ataque americano à Venezuela
A captura de Nicolás Maduro reacende o debate sobre intervenção estrangeira, soberania estatal e interesses estratégicos no continente.
O
governo norte-americano anunciou a captura do presidente-ditador venezuelano
Nicolás Maduro e de sua esposa.
Na
madrugada desta terça-feira, uma série de explosões atingiu Caracas, capital da
Venezuela. A operação, conduzida em larga escala, bombardeou locais
estratégicos do governo venezuelano enquanto forças especiais invadiam o país e
sequestravam Nicolás Maduro e sua esposa.
O
pano de fundo da ofensiva militar, segundo o governo americano, é o combate ao
tráfico internacional de drogas. Maduro e sua esposa seriam chefes de um grande
cartel internacional fornecedor de drogas e armas ao mercado, ilegal,
estadunidense.
O
primeiro ponto a ser considerado é a invasão de um Estado soberano por outro.
Em pleno 2026, a arcaica forma de demonstrar força ainda prevalece, seja por
democracias, seja por regimes totalitários, vide a Rússia. No mundo moderno,
essa conduta não tem mais espaço; ou, ao menos, não deveria ter.
Vale
lembrar que, no primeiro mandato de Donald Trump, Maduro já era alvo declarado.
À época, chegou-se a cogitar apoio do Brasil para que, a partir do nosso território,
fosse lançada uma ofensiva terrestre contra a Venezuela. Jair Bolsonaro,
contudo, foi convencido pelo alto comando militar brasileiro a não compactuar
com o plano.
Retomando
o pano de fundo da operação, o governo americano substituiu, de forma
habilidosa, o discurso do combate a regimes ditatoriais, utilizado por George
W. Bush para justificar a invasão do Iraque, pelo argumento do combate ao
narcotráfico. O motivo é simples: se os Estados Unidos fossem “levar democracia
ao mundo”, teriam de invadir uma infinidade de países, incluindo a Rússia e
diversos Estados africanos.
O
combate ao narcotráfico não passa de narrativa conveniente, uma cortina de
fumaça. Três hipóteses reais pairam sobre os verdadeiros motivos do ataque: acesso
ao petróleo e aos minerais venezuelanos; eliminação da influência chinesa e
russa no continente americano;
demonstração de força aos demais países da América do Sul.
Agora,
após a extração, ou sequestro, do ditador-presidente, seus aliados permanecem
no comando do país, o que mantém o regime ditatorial, ainda que com novas
figuras no poder.
Ao
que tudo indica, o governo norte-americano não deve intervir diretamente na
reorganização interna do país, apostando que o vácuo de poder inflame a
população venezuelana a tomar as ruas clamando por novas eleições. Caso isso
não ocorra, o regime tende a se perpetuar.
A
tendência é que, mesmo à distância, os Estados Unidos abram espaço para um
governo de oposição disposto a negociar petróleo e minerais com empresas
americanas e a selar a “normalização” das relações diplomáticas, com a
reabertura da embaixada dos EUA em Caracas.