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Esporte

A cidade que entrou na história do Mundial sem precisar sediar jogos

Entre um taubateano que virou recordista de Copas, um mito local que vestiu a camisa da Seleção ainda na era anterior ao Mundial, Pelé fazendo supletivo na cidade antes de conquistar o tri e movimentos culturais que levaram o clima da Copa para dentro de Taubaté, a relação do município com o maior torneio de futebol do planeta é mais rica do que parece à primeira vista.

Miriam Tellini | Data: 18/04/2026 10:34

Quando se fala em Copa do Mundo, Taubaté quase nunca aparece no centro da conversa. Não é uma cidade lembrada por ter sido sede de jogos, nem por ter figurado entre os palcos mais conhecidos do Mundial. Mas isso não significa distância. Muito pelo contrário, a cidade construiu uma relação própria com a Copa, feita de personagens, memórias, simbologia esportiva e uma paixão popular que atravessa décadas. Em Taubaté, a Copa do Mundo não se resume ao calendário da FIFA; ela aparece na biografia de moradores, nas histórias do futebol local e até em iniciativas culturais que transformam o Mundial em assunto da cidade. 

Essa história começa antes mesmo de a Copa do Mundo existir. O taubateano Altino Marcondes, o Tatu, foi um dos grandes nomes do futebol brasileiro na década de 1920. Ele estreou pelo E.C. Taubaté em 1916, passou pelo Corinthians e foi convocado para a Copa América de 1922, tornando-se o primeiro taubateano a marcar um gol e a ser campeão pela seleção brasileira. Mesmo não sendo uma Copa do Mundo, esse feito ajuda a entender que Taubaté já produzia, há mais de um século, nomes que chegavam à Seleção e deixavam sua marca no futebol nacional. 

Anos depois, já na era dos Mundiais, a cidade voltaria a cruzar o caminho de um dos maiores ícones do futebol mundial. Em 1970, poucos meses antes da Copa do México, Pelé veio para Taubaté para fazer o exame de madureza, espécie de supletivo da época, em 22 de fevereiro. O Rei do Futebol passou cerca de uma semana na cidade e ficou hospedado na pensão de Pierina Sbruzzi. A lembrança é curiosa e poderosa ao mesmo tempo: Taubaté aparece como cenário de um momento da vida de Pelé que antecedeu o tricampeonato mundial do Brasil. 



foto: reprodução


A visita de Pelé é daquelas histórias que atravessam gerações porque unem o extraordinário ao cotidiano. O maior jogador da história estava em Taubaté por um motivo banal e decisivo ao mesmo tempo, sim, estudar. A reportagem do GE relembra que ele procurava um local para prestar o exame justamente em uma folga dos treinamentos da Seleção, e encontrou em Taubaté uma solução prática para um problema de bastidor. Três meses depois, Pelé voltaria ao Brasil com a Taça Jules Rimet nas mãos, e a lembrança da cidade ficaria colada àquele capítulo glorioso do futebol brasileiro. 

Outra camada dessa relação aparece no futebol local. O E.C. Taubaté, fundado em 1914, construiu uma trajetória centenária que o colocou no mapa esportivo do interior paulista. Em um texto histórico do Sesc, o clube é lembrado por ter recebido em seu estádio grandes nomes do futebol paulista, entre eles Pelé, além de outros craques que marcaram época. Isso ajuda a entender por que o futebol em Taubaté nunca foi apenas lazer de bairro, em Taubate o futebol também foi palco de encontros com os grandes personagens do esporte nacional. 

Há, porém, uma figura que talvez represente melhor do que qualquer outra o elo afetivo de Taubaté com a Copa do Mundo, Daniel Sbruzzi. O taubateano entrou para o Guinness World Records como o torcedor que mais Copas assistiu na vida, com 11 edições acompanhadas até 2022. A sua primeira Copa foi a de 1978, na Argentina, e desde então ele passou por diversos mundiais, sempre com a mesma mistura de paixão pelo futebol e identidade cultural. O caso dele é fascinante porque transforma Taubaté em ponto de partida de uma trajetória global de torcida. 

Sbruzzi também levou para o mundo o espírito de outro símbolo cultural taubateano: o bloco carnavalesco Vai Quem Quer. Segundo o Guinness, ele representou o bloco em sua primeira Copa, em 1978, e manteve essa ligação entre carnaval e futebol em várias outras edições do torneio. A reportagem do Sesc São Paulo sobre veteranos nas arquibancadas mostra justamente esse traço, Daniel foi ganhando presença em Copas sem abandonar o bloco nem a cidade natal. É uma imagem muito forte de Taubaté no Mundial, que não a da sede, mas a da torcida que viaja, inventa símbolos e se reconhece no evento. 

Essa atmosfera não ficava restrita ao torcedor individual. Em 2014, ano da Copa no Brasil, o Sesc Taubaté organizou uma programação especial em torno dos 20 anos da conquista do tetracampeonato, com ações relacionadas à Copa do Mundo e ao futebol. A unidade anunciou atividades, debates e uma ambientação temática dedicada ao “fim do jejum” de 1994, mostrando que o Mundial também era tratado como experiência cultural, e não só esportiva. Em outras palavras, Taubaté não apenas assiste à Copa ela a transforma em pauta cultural. 

Nesse mesmo contexto, a cidade chegou a entrar, ainda que de forma frustrada, na disputa para virar cidade-base da Copa de 2014. O jornal Contato registrou em 2012 o debate em torno da candidatura de Taubaté, articulada por setores da sociedade civil e do turismo local, mas também mostrou que o projeto esbarrou em problemas de inscrição e no projeto de municipalização do Esporte Clube Taubaté. O episódio é revelador porque mostra que a relação da cidade com a Copa não era só afetiva havia também uma tentativa concreta de entrar na engrenagem oficial do evento. 

Mesmo sem ter avançado como cidade-base, Taubaté já demonstrava a capacidade de mobilização em torno do futebol. A matéria do Contato indica que havia articulação com entidades como instituto, sindicato, sistema S, conselho de turismo e fórum regional de desenvolvimento, o que revela uma rede local interessada em usar a Copa como alavanca de visibilidade e turismo. Isso dá dimensão pública à relação da cidade com o Mundial a Copa sempre foi vista como oportunidade de projeção, circulação e ativação econômica. 

Há ainda um aspecto cultural, Taubaté se relaciona com a Copa não só pelos ídolos e instituições, mas pela forma como seus moradores contam e recontam essas histórias. 

Além do simbolismo do E.C. Taubaté, que ajuda a consolidar essa identidade esportiva. O centenário do clube, sua presença histórica no futebol paulista e o fato de ter recebido craques como Pelé dão à cidade um repertório esportivo que dialoga com a Copa por uma via indireta, mas consistente. Em cidades como Taubaté, a Copa do Mundo não nasce do estádio mundialista; ela nasce do campo do bairro, do clube tradicional, do torcedor de longa data, do rádio e da memória coletiva. 

Por isso histórico de Taubaté com a Copa do Mundo é bonito, porque a cidade não é lembrada como palco oficial, mas é uma cidade de copas no sentido mais vivo da expressão. Ela teve um taubateano pioneiro na seleção ainda na era anterior ao Mundial, recebeu Pelé às vésperas de uma Copa histórica, viu um morador transformar a torcida em recorde mundial e chegou a se mobilizar institucionalmente para entrar na rota da Copa de 2014. Poucas cidades do interior paulista reúnem uma narrativa tão variada e tão cheia de camadas. 

No fim, Taubaté talvez diga algo importante sobre o próprio Brasil, a Copa do Mundo não acontece só onde a FIFA instala seus estádios. Ela acontece também nas cidades que a vivem como memória, ambição, festa e pertencimento. E, nesse mapa sentimental do futebol brasileiro, Taubaté tem lugar garantido.

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