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Trump e o sequestro da Venezuela: petróleo, poder e o uso da força como política

Ao assumir o controle político e econômico de um país soberano, os Estados Unidos recolocam a força militar como instrumento de dominação e abrem um precedente perigoso para a América Latina

Marcelo Caltabiano | Data: 03/01/2026 15:17

A ofensiva militar dos Estados Unidos contra a Venezuela, anunciada e celebrada publicamente pelo presidente Donald Trump, marca um ponto de inflexão nas relações internacionais do século XXI. Não se trata apenas de uma intervenção externa ou de mais um episódio de tensão diplomática: trata-se da apropriação explícita de um país inteiro, de suas instituições e, sobretudo, de suas riquezas naturais, com o petróleo no centro da estratégia.

As palavras de Trump não deixam espaço para ambiguidades. Ao afirmar que os Estados Unidos vão “administrar” a Venezuela até que uma transição considerada adequada ocorra, o presidente norte-americano assume um papel que ignora princípios básicos do direito internacional. Não há mediação multilateral, não há plebiscito, não há negociação soberana. Há a imposição da força, legitimada por um discurso de eficiência militar e por acusações criminais que, até agora, não foram acompanhadas de provas apresentadas à comunidade internacional.

A captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, a retirada forçada do presidente do território venezuelano e o anúncio de que ambos serão julgados em tribunais norte-americanos reforçam a ideia de que a soberania passou a ser tratada como um detalhe secundário. O próprio governo dos EUA reconhece que “está lá agora” e que permanecerá no país. Na prática, a Venezuela deixa de ser uma nação autônoma e passa a ser um território sob tutela estrangeira.


O discurso de combate ao narcotráfico e à corrupção segue um roteiro conhecido na história das intervenções dos Estados Unidos. Ao longo das décadas, esse tipo de narrativa foi utilizado para justificar ações militares em diferentes partes do mundo, muitas delas seguidas por longos períodos de instabilidade, violência e dependência econômica. No caso venezuelano, o argumento moral perde força quando Trump anuncia, quase simultaneamente, que empresas petrolíferas norte-americanas assumirão o controle da indústria de petróleo do país.

A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta. Esse dado, longe de ser periférico, ajuda a entender a rapidez, a intensidade e o entusiasmo com que a operação foi conduzida. O que é apresentado como reconstrução econômica soa, para muitos países da região, como expropriação de recursos estratégicos sob proteção militar. Trata-se de uma lógica clássica do imperialismo: controlar territórios, governos e riquezas em nome da ordem e da prosperidade, mas sempre a partir dos interesses da potência interventora.

A reação do governo venezuelano, ao denunciar uma “guerra colonial” e recorrer à Carta das Nações Unidas, insere o episódio em um debate mais amplo. O ataque, segundo Caracas, viola frontalmente os princípios de soberania, igualdade entre os Estados e proibição do uso da força. Ao levar o caso ao Conselho de Segurança da ONU e a organismos regionais, a Venezuela tenta transformar uma agressão bilateral em um alerta global.

Na América Latina, as manifestações de repúdio evidenciam o temor de um retorno a práticas que muitos acreditavam superadas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou a ação como uma afronta gravíssima à soberania e um precedente extremamente perigoso, lembrando os piores momentos da interferência estrangeira na política da região. Não se trata apenas de solidariedade a um governo, mas da defesa de um princípio: nenhum país deve ser invadido, ocupado ou administrado por outro.

Quando Trump afirma que pretende ampliar o domínio americano no Hemisfério Ocidental, a mensagem vai além da Venezuela. Ela ecoa uma visão geopolítica em que a América Latina continua sendo tratada como área de influência direta, disponível para intervenções sempre que interesses estratégicos, energéticos, econômicos ou políticos, estiverem em jogo.

Diante desse cenário, uma pergunta inevitável surge e precisa ser feita sem alarmismo, mas com responsabilidade: será que o Brasil, dono de vastos recursos naturais, reservas energéticas e importância geopolítica crescente, pode se tornar um alvo em um futuro distante ou não tão distante assim? A história mostra que o imperialismo não escolhe suas ações com base apenas em ideologia, mas em conveniência e oportunidade.

O que acontece hoje na Venezuela não diz respeito apenas aos venezuelanos. Diz respeito a toda a América Latina e ao modelo de mundo que se pretende consolidar. Um mundo em que a força substitui o diálogo, o petróleo vale mais que a soberania e países inteiros podem ser sequestrados sob o pretexto de ordem e progresso.

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