Respeito à memória do Monteiro Lobato: Entre a ignorância e o apagamento cultural
Em pleno século XXI, o cancelamento de Monteiro Lobato revela uma sociedade que prefere destruir sua história a compreendê-la, um apagamento cultural que começa na cidade onde ele nasceu
Falar em “cancelar” Monteiro Lobato é, antes de tudo, uma demonstração alarmante de desconhecimento histórico e de pobreza cultural. Tentar apagar a obra de um autor que escreveu há mais de 100 anos, cuja literatura é reconhecida mundialmente, traduzida para diversos idiomas, inclusive publicada na Rússia, é não apenas um equívoco: é um atentado contra a memória, contra a arte e contra o patrimônio cultural brasileiro.
Lobato escreveu sobre o mundo que existia à sua volta. É óbvio que ele não falava sobre internet, redes sociais ou influenciadores digitais, simplesmente porque isso não existia na época em que viveu. Ele retratava o cotidiano, os valores, as contradições e também os preconceitos de seu tempo, como qualquer escritor realista ou crítico faria.
Isso se chama contexto histórico, algo que muitos insistem em ignorar.
Mas, em vez de interpretar sua obra como um documento que revela mentalidades de uma época, que deve ser analisado, estudado, debatido, nunca destruído, a solução encontrada por alguns é o cancelamento simplista, o julgamento anacrônico, o linchamento moral. Falta estudo, falta leitura, falta cultura. Falta coragem de olhar para o passado e entendê-lo como ferramenta para construir o futuro.
A TV Globo, ao reprisar novelas antigas, coloca um aviso claro e sensato:
“ESSA OBRA PODE CONTER REPRESENTAÇÕES NEGATIVAS E ESTEREÓTIPOS DA ÉPOCA EM QUE FOI REALIZADA. A OBRA É EXIBIDA NA ÍNTEGRA PORQUE ACREDITAMOS QUE ESSAS CENAS PODEM CONTRIBUIR PARA O DEBATE SOBRE UM FUTURO MAIS DIVERSO E INCLUSIVO.”
Isso se chama bom senso.
Isso se chama responsabilidade cultural.
Isso se chama entender que a história não pode ser apagada, mas compreendida.
E por que esse entendimento não vale para Monteiro Lobato?
Críticas a ele existem, e devem existir, porque a crítica constrói reflexão. Mas se o alvo é Lobato, por que não se faz essa mesma devassa em obras de Machado de Assis, José de Alencar, Lima Barreto, Jorge Amado e tantos outros autores brasileiros clássicos que retrataram, cada um à sua maneira, racismo, escravidão, machismo e hipocrisia social?
Todos eles escreveram sobre seu tempo.
Lobato também.
É curioso, para não dizer triste, que Taubaté, a terra onde ele nasceu, seja justamente o lugar onde ele mais enfrenta intolerância, desinformação e abandono institucional.
Enquanto Atibaia (parabéns Renato Costa, CEO do Grupo Forma) inaugura um fantástico Parque Temático do Sítio do Picapau Amarelo, entendendo seu potencial turístico; enquanto Angatuba (parabéns a Sergio Marciliano e sua equipe) celebra Lobato com orgulho e atrai visitantes com eventos dedicados a seus personagens; Taubaté escolhe virar as costas.
Taubaté desperdiça seu ouro cultural.
Despreza o óbvio.
E insiste em não investir naquilo que poderia, inclusive, gerar economia e pagar dívidas: o turismo cultural baseado em seus filhos ilustres.
E que filhos!
Hebe Camargo, Celly Campello, Cid Moreira, Georgina de Albuquerque, Clodomiro Amazonas, entre tantos outros. Personalidades com visibilidade nacional que, em vez de serem celebradas, parecem ser tratadas como fardos.
Falta projeto.
Falta visão.
Falta gente competente para entender que cultura é investimento, não despesa.
Foram realmente desvalorizados na obra de Monteiro Lobato, esses dois personagens tão importantes, Tio Barnabé e Tia Nastácia? Claro que não.
Tio Barnabé é a própria celebração do saber popular, da cultura tradicional, da força da oralidade. Ele personifica o conhecimento que não vem de bibliotecas, mas da experiência, da vivência, das histórias transmitidas de geração em geração. Desvalorização? Não. Lobato lhe dá protagonismo ao transformá-lo no guardião da sabedoria ancestral do Sítio.
E Tia Nastácia? Um bom leitor, não um leitor apressado, nem um caçador de polêmicas, sabe que ela encarna a figura criadora, a presença divina, a “mãe ancestral” do Sítio do Picapau Amarelo. É ela quem alimenta, acolhe, orienta, salva e resolve. Em inúmeras passagens, é a peça fundamental que sustenta a vida cotidiana do Sítio. Nada nela é diminuído, pelo contrário, é reverenciada pelos personagens e pelo próprio autor.
Se há quem a rotule com desprezo como “ex-escrava” ou destaque apenas que era “negra”, é porque essa era justamente a realidade histórica dos afrodescendentes no Brasil da época em que Lobato viveu e escreveu. Apontar sua cor e sua origem não é desvalorização: é contexto. É retrato social. É documento literário. É, inclusive, parte da luta para entender quem fomos, e como podemos ser melhores.
Antes de acusar Lobato, é preciso ler Lobato.
Antes de cancelar personagens, é preciso compreender seus papéis.
Antes de apagar história, é preciso aprender com ela.
Enquanto isso, os sinos dobram, e a bisneta de Monteiro Lobato, Cleo Monteiro Lobato, pensa seriamente em doar todo o precioso acervo do escritor para a USP, já que sua cidade natal demonstra tão pouco interesse pelo legado daquele que deu ao Brasil uma das obras mais amadas da literatura infantil.
É triste, mas é real.
E ironicamente, é o tipo de drama que o próprio Lobato adoraria transformar em crônica: a história de um gênio ignorado por sua própria terra!