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O Brasil sempre esteve lá. Agora é a hora

Filmando, insistindo, errando, acertando, resistindo. Agora, finalmente, é a hora.

Dimas Oliveira Junior | Data: 23/01/2026 12:12

O Brasil sempre esteve lá. Mesmo quando diziam que não. Mesmo quando fingiam não ver. Mesmo quando o cinema nacional era tratado como primo pobre da cultura, aquele parente que aparece nos almoços de domingo e a família prefere ignorar. O Brasil sempre esteve lá, filmando, insistindo, errando, acertando, resistindo. Agora, finalmente, é a hora.

A notícia, mais do que esperada, chegou como um soco de alegria no estômago: o Brasil está indicado a cinco categorias do Oscar com o filme Agente Secreto. Não é pouca coisa. Não é sorte. Não é acaso. É consequência. É o resultado de décadas de luta, reinvenção e teimosia criativa. É, sobretudo, o reconhecimento do cinema brasileiro como aquilo que ele sempre foi, uma poderosa indústria de economia criativa, ainda que durante muito tempo tratada como hobby, luxo ou extravagância.

Talvez, a partir de agora, muitos brasileiros que proclamam, com certo orgulho torto, “não gostar de cinema nacional”, precisem parar, respirar e repensar. Não se trata de patriotismo cego, mas de maturidade cultural. O cinema brasileiro não pede aplauso automático, pede olhar atento. Porque ele caminha, há tempos, por uma estrada correta e necessária: a de preservar a memória, tensionar a história e apresentar às novas gerações os recortes contraditórios do país que somos.

Não há como fugir disso. Nosso cinema sempre foi político, mesmo quando falava de amor. Sempre foi social, mesmo quando parecia íntimo. Sempre foi histórico, mesmo quando parecia cotidiano. E sim, ele encarou a Ditadura Militar de frente, sem maquiagem, sem filtro, sem concessões. Uma visão aberta, real, incômoda. Como toda arte que merece respeito.

É preciso lembrar que nada disso começou agora. A chamada retomada do cinema brasileiro, nos anos 1990, tem nome e sobrenome: Carla Camurati. Com Carlota Joaquina, Princesa do Brasil, ela reacendeu uma chama que muitos julgavam apagada. E não foi por acaso que o filme tinha caráter histórico, irônico e memorialístico. O cinema brasileiro sempre se reergueu olhando para si mesmo, revisitando suas origens, cutucando suas feridas.


Desde então, estamos caminhando. E mais: estamos sendo vistos. O mundo começa a compreender que o Brasil não produz apenas exotismo ou caricatura, mas um cinema real, duro quando precisa ser, poético quando pode ser, tecnicamente sólido e interpretativamente potente. Um cinema com conteúdo. Sem máscaras.

As indicações de Agente Secreto

O reconhecimento veio em peso. Agente Secreto recebeu cinco indicações ao Oscar, consolidando um feito histórico para o audiovisual brasileiro. Entre as categorias indicadas estão:

  • Melhor Filme Internacional
  • Melhor Filme
  • Melhor Direção
  • Melhor Roteiro
  • Melhor Atuação Masculina

Mais do que troféus possíveis, essas indicações funcionam como faróis. Iluminam o caminho percorrido e apontam o que ainda pode ser feito.

Brasileiros em Hollywood: pioneiros esquecidos

Mas toda celebração precisa de memória. Porque antes de hoje, muitos brasileiros já haviam trilhado os caminhos de Hollywood, pioneiros, corajosos, hoje quase apagados da história oficial.

Lia Torá (1903-1972), estrela luminosa do cinema brasileiro dos anos 1930, atravessou fronteiras quando quase ninguém o fazia. Atuou no cinema norte-americano, levando consigo a elegância e a presença da mulher brasileira em um cenário que pouco nos conhecia.

Syn de Conde (1894-1990), ator de traços marcantes e presença sofisticada, foi outro nome que tentou, com dignidade, ocupar espaços internacionais, enfrentando preconceitos, barreiras linguísticas e um sistema pouco aberto a estrangeiros.

Olimpio Guilherme (1902-1973), igualmente, buscou reconhecimento fora do país num tempo em que não havia tapete vermelho para brasileiros, apenas portas entreabertas e olhares desconfiados.

Mas é impossível falar dessa travessia sem dedicar atenção especial a ele: Raul Roulien.

Raul Roulien: o brasileiro que ousou sonhar grande

Raul Roulien (1905-2000), foi, talvez, o nosso primeiro grande homem em Hollywood. Ator, diretor, produtor. Um brasileiro que não renegou suas origens, mesmo quando o sistema exigia isso. Atuou em produções internacionais, circulou entre grandes estúdios, aprendeu os mecanismos da indústria cinematográfica americana, e voltou.

Voltou com um sonho considerado perigoso: fazer cinema no Brasil como indústria, nos moldes do cinema norte-americano, sem abrir mão de identidade. Um projeto ambicioso demais para um país que ainda não sabia se queria se levar a sério.

Roulien pagou caro por isso. Enfrentou perseguições, resistências, boicotes. Foi visto como ameaça num ambiente que preferia o improviso à estrutura, o artesanal ao industrial. Em muitos aspectos, poderia ter sido um precursor do Cinema Novo, não no discurso, mas na ousadia de romper modelos.

Hoje, ao vermos o Brasil indicado ao Oscar, é impossível não imaginar Raul Roulien e tantos outros, aplaudindo em silêncio. Não por vaidade, mas por justiça histórica.

Cinema é coisa séria

O cinema brasileiro não pede favores. Pede respeito. Pede políticas públicas contínuas, memória preservada, formação de público e compreensão de que cultura não é gasto, é investimento. Investimento em identidade, educação, economia e soberania simbólica.

O Brasil sempre esteve lá. Filmando sua própria história, mesmo quando poucos queriam assistir. Agora, o mundo olha. E talvez seja o momento de nós, brasileiros, fazermos o mesmo, com menos preconceito e mais orgulho.

Porque cinema não é passatempo.
Cinema é memória.
Cinema é indústria.
Cinema é país.

E o Brasil, definitivamente, sempre esteve lá.

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