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Não é caso isolado: racismo se repete da praia ao ônibus, do campo de futebol às ruas

Episódios registrados em Ubatuba, Taubaté e Guaratinguetá revelam que ofensas raciais seguem presentes em espaços públicos, no esporte e no cotidiano da região

Marcelo Caltabiano | Data: 09/01/2026 14:11

Os episódios de racismo registrados recentemente em Ubatuba, no Litoral Norte de São Paulo, não são fatos isolados. Ao contrário, se inserem em um conjunto de ocorrências semelhantes denunciadas nos últimos meses no Vale do Paraíba e em outras regiões do país, revelando um padrão recorrente de violência racial em ambientes públicos, esportivos e de trabalho.

Em Ubatuba, dois casos distintos chamaram a atenção pela proximidade temporal e pela repercussão social. O mais recente ocorreu ontem, quinta-feira, 8, na Praia Grande, quando uma mulher foi presa após a análise de vídeos que mostraram ofensas raciais contra um guarda-vidas temporário. Os registros apontam o uso da palavra “macaco”, expressão reconhecida pela legislação brasileira como injúria racial, hoje equiparada ao crime de racismo, imprescritível e inafiançável desde decisão do Supremo Tribunal Federal, em 2023.

A confusão teve início após o relato do desaparecimento momentâneo de uma criança, enquanto os guarda-vidas atendiam uma ocorrência de salvamento no mar. O episódio evoluiu para hostilizações verbais, confronto físico e intervenção policial. A prisão de Angélica Cristina Da Silva Ramos, de 36 anos, ocorreu depois que a Polícia Civil considerou que as imagens confirmavam a prática de ofensa de cunho racial.

Poucos dias antes, outro caso de racismo foi denunciado dentro de um ônibus da cidade. O vendedor de doces Émerson Henrique, de 21 anos, relatou ter sido alvo de insultos racistas por um passageiro, também com o uso da palavra “macaco”. As ofensas foram gravadas por testemunhas e amplamente divulgadas nas redes sociais, expondo novamente a vulnerabilidade de trabalhadores negros em situações cotidianas.

Fora do Litoral Norte, denúncias semelhantes reforçam que o problema atravessa toda a região. Em Taubaté, um motociclista de aplicativo denunciou ter sido vítima de racismo após se recusar a retirar a rede de proteção da moto a pedido de uma passageira. Segundo o relato, a mulher afirmou frases como “eu sou branca e você é preto”, além de tentar derrubar a motocicleta. O episódio foi registrado em vídeo e contou com a intervenção de testemunhas.

Ainda em Taubaté, o racismo também se manifestou no esporte amador. Durante uma partida da 3ª divisão do Campeonato Amador, um jogador foi preso após chamar o atacante Vinícius Balotelli de “macaco”. A ofensa foi confirmada por testemunha e resultou em prisão em flagrante com base na Lei de Crimes Raciais. A partida foi encerrada após o incidente, e até o momento não houve posicionamento oficial da liga organizadora.

Em Guaratinguetá, a violência racial atingiu uma criança. Uma mulher foi presa em flagrante após ofender um jogador de 12 anos durante uma partida do Campeonato Paulista sub-12. O árbitro acionou o protocolo antirracismo da CBF, e a ocorrência foi registrada na súmula oficial. A torcedora foi autuada com base na legislação vigente e encaminhada à Cadeia Pública de Lorena.

A recorrência desses casos reforça o que Gabriel O Pensador já denunciava, ainda nos anos 1990, em suas musíca, ao afirmar que “racismo, preconceito e discriminação em geral é uma burrice coletiva sem explicação”. Os episódios mostram que, apesar dos avanços legais, preconceitos seguem sendo reproduzidos de forma quase automática, muitas vezes naturalizados em conflitos cotidianos, no esporte e no transporte público.

A música também alerta que “o racismo é burrice, mas o mais burro não é o racista, é o que pensa que o racismo não existe”. A sequência de denúncias no Vale do Paraíba e no Litoral Norte evidencia que negar o problema não o elimina. Pelo contrário, contribui para sua permanência e reprodução, muitas vezes desde a infância, “em forma de piadas”, como descreve a letra, que acabam transmitindo a discriminação de geração em geração.

A legislação brasileira avançou ao ampliar a responsabilização penal, mas os episódios recentes mostram que a aplicação da lei, embora necessária, não é suficiente para coibir práticas que continuam a se repetir. O enfrentamento ao racismo exige mais do que punição: passa por educação, debate público e pela recusa coletiva em tratar a violência racial como algo menor ou aceitável.

Enquanto novas ocorrências seguem sendo registradas, a denúncia, a apuração e a visibilidade desses casos cumprem um papel central para romper o silêncio histórico que muitas vezes envolve o racismo. A insistência em registrar e expor esses episódios mostra que o problema persiste, mas também que cresce a disposição de não aceitar a normalização da violência racial na região.

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