FAVELADO BOM, É FAVELADO MORTO!
Quando um agente político resolve usar a segurança pública e suas instituições como cena política, a tragédia já está prenunciada pelo desenho elaborado: uma operação em uma comunidade pobre onde o Estado se fez ausente e onde haverá um saldo de muitas mortes.
É entendimento unânime que o crime organizado precisa ser combatido. Entretanto, a forma como se dará esse combate varia conforme a conveniência.
Há algum tempo venho afirmando que existem somente duas maneiras de combate eficiente ao crime organizado: INTELIGÊNCIA POLICIAL e INTELIGÊNCIA FINANCEIRA. Com essas duas ferramentas, o agente público, pacientemente elaborará o levantamento do terreno e “modus operandi” para a operação com a absoluta redução de danos para os trabalhadores da segurança pública e para a população periférica que tanto sofre com as tais “balas perdidas”. Isso tudo será fruto do uso eficiente da Inteligência Policial.
Para entender a aplicação da Inteligência Financeira, é fundamental compreender o crime como empresa. Gary Becker, em sua “Teoria Econômica do Crime”, define ser o crime uma atividade racional, econômica e lucrativa. Que a todo momento, o delinquente avalia os riscos e a relação custo-benefício para prosseguir na ação delituosa. Becker recomenda que o poder público tem a obrigação de desencorajar tais práticas delituosas, garantindo a certeza da punibilidade e a severidade da punição.
Por ser o crime uma atividade econômica, a Inteligência Financeira deve dar suporte à Inteligência Policial para que ambas propiciem um cenário repressivo ao delito, com o mínimo de danos colaterais.
Para facilitar a compreensão de Inteligência Policial eficiente, trarei o exemplo da “Operação Carbono Oculto”realizada recentemente pelo Governo Federal. Uma operação magistral pelo esmero da Inteligência Financeira que feriu de morte o crime organizado atuante no mercado financeiro, nas “fintechs”, nos postos de gasolina e no santuário financeiro do Brasil chamado Faria Lima. Uma ação coroada de sucesso, sem um tiro, sem um morto. Seria qualidade apenas dos serviços de inteligência?
Porém, para cada ponto positivo, há inúmeros negativos. O ápice do negativo vem da “Operação Contenção” realizada pelo governo do Estado do Rio de Janeiro nesta terça feira, 28Out25, nos Complexos do Alemão e da Penha. Saldo da Operação: 64 vítimas fatais, dentre elas dois policiais militares e dois policiais civis. Será que essas pesadas baixas foram calculadas no planejamento e F…-SE ou esse detalhe fugiu da visão dos planejadores que levaram dois meses debruçados sobre o teatro de operações?
Algumas ações policiais têm se comportado como papel higiênico, além de não limparem, ainda espalham a “sujeira”. Isso se dá porque algumas forças de segurança do país resolveram pelo enfrentamento, usando as mesmas armas do crime organizado. O resultado é altamente previsível: o crime organizado sempre levará a melhor pois, além de dissimulado inclusive na Faria Lima e nos condomínios de luxo, possui armamento de extrema letalidade.
A inteligência policial falha ao não entender ou não querer ver que os morros não fabricam armas e que esses morros não produzem drogas. Todo esse material vem de fora da comunidade.
Depois de uma ação desastrosa dessa, fica o consolo para muitos e a alegria para alguns ao saberem que eram favelados oriundos de um mundo gerado pelo processo de higienismo social engendrado por Barata Ribeiro no final do Século XIX. Um processo que empurrou a população negra e pobre para os morros cariocas, pois precisava limpar a região portuária. Além do higienismo, a EUGENIA era um dos objetivos desse confinamento e que se arrasta por mais de um século estigmatizando brasileiros abandonados pelo Estado, cujo espaço vem sendo ocupado pelo Poder Paralelo. Ao povo desvalido, nada a fazer a não ser seguir a máxima maquiaveliana de que “o povo conspira com quem o protege”.
O que mais dói é perceber que o RELATIVISMO HISTÓRICO presente no caráter de certos governantes lhes proporcionará a interpretação relativa exclusivamente sob seu próprio olhar, sem levar em consideração o processo histórico e social que gerou tal situação. JAMAIS SE COMBATERÁ EFICAZMENTE UMA PNEUMONIA TRATANDO APENAS A FEBRE. Mais do que uma visão policial, é preciso ter uma abordagem social para a segurança pública.
Segurança pública é muito mais que confrontos midiáticos que resultam em mortos. Segurança Pública é um direito social garantido pela Constituição Federal que não envolve só as forças policiais como querem nos fazer crer os governantes irresponsáveis. A segurança pública é um sistema composto de vários órgãos, inclusive judiciário e ministério público. Quando esse sistema falha, fica mais fácil culpar a instituição fardada pelas tragédias.
Que o acontecido nesta terça feira no Rio de Janeiro sirva de estudo de caso para todas as instituições policiais brasileiras para que outros desastres como esse não se repitam.
Brasileiros que moram em comunidades, são brasileiros plenos de direitos. O poder público não pode olhar para tais pessoas como seres que devem ser extirpados. Essa mentalidade está inserida subculturalmente no processo de formação de nossos trabalhadores da segurança pública ao entoarem cantos de guerra dizendo que vão subir o morro, invadir a favela, dar tapa na cara…Em nenhum momento cantam algo como “vou invadir condomínio de luxo e pendurar o playboy da ferrari”.
É preciso urgentemente repensar o modelo de segurança pública brasileiro, sobretudo o processo de formação dos trabalhadores da segurança pública para que entendam que são TRABALHADORES e que UMA POLÍCIA OSTENSIVA QUANTO MAIS PRENDE, QUANTO MAIS MATA, MAIS INEFICIENTE É!
Se não virar a chave, o caos continuará imperando na segurança pública brasileira.