A Narizinho que o Brasil jogou fora: Guiomar Novaes
Como a maior pianista do mundo inspirou Monteiro Lobato, e foi abandonada pela memória nacional!
O Brasil é um país curioso. Produz gênios, exporta
talentos, encanta o mundo, e depois esquece. Esquece com método, com eficiência
e, sobretudo, com uma certa displicência quase artística. Aqui, memória não dá
audiência, não rende selfie, não viraliza. E, se não viraliza, não existe. É
nesse país de lembranças rasas e comemorações ocasionais que repousa,
silenciosa e maltratada, a história de Guiomar Novaes. Alguém
ainda sabe quem foi Guiomar Novaes? Ou melhor: alguém se importa?
Para refrescar a memória nacional, sempre tão
curta, Guiomar Novaes foi simplesmente considerada “a maior pianista do
mundo”. Sim, do mundo. Não do bairro, não do estado, não da América
Latina. Do planeta. Mas talvez o problema esteja aí: grande demais para caber
no esquecimento seletivo brasileiro, que prefere recordar quem gritou mais
alto, apareceu mais vezes ou, quem sabe, exibiu algum escândalo mais palatável.
Ontem, em uma conversa deliciosa e indignada com verdadeiros mestres da cultura musical brasileira, Denis Wagner Molitsas, pesquisador e produtor incansável da música erudita; a produtora cultural Ana Maria Natali, empresária da resistência cultural; Jomário Lopes, pesquisador atento; e o querido Lívio, responsável pelo registro desse encontro, voltamos inevitavelmente a Guiomar. E quase chegamos a uma conclusão tão absurda quanto reveladora: talvez o abandono de sua memória se deva ao fato de ela nunca ter feito uma tatuagem “íntima”, nunca ter protagonizado um escândalo midiático e, pior, apresentar-se sempre vestida, com postura, disciplina e silêncio. Que erro estratégico, Guiomar. No Brasil, o talento sem espetáculo costuma ser invisível.

Guerreira, ela foi. E como. Resistiu até a duas
caçambas de lixo, destino dado ao seu riquíssimo acervo, jogado fora
como entulho cultural. Afinal, para que guardar memória? Felizmente, parte
desse material foi resgatada. Mas o alívio durou pouco: vieram os depósitos
inadequados, a umidade, os alagamentos, o descaso institucional, esse velho
conhecido nosso. O que sobreviveu só está hoje a salvo graças à obstinação
quase heroica de Denis Wagner Molitsas e Ana Maria Natali, que
não mediram esforços para salvar o que restava da obra e da história dessa
gigante. Se há memória de Guiomar preservada, ela se deve mais à teimosia de
indivíduos do que a qualquer política pública consistente. O que, convenhamos,
é um retrato fiel do Brasil.
Guiomar Novaes nasceu em São João da Boa
Vista, em 1894, e morreu em São Paulo, em 1979. Teve carreira
internacional, foi reverenciada por público e crítica, e tornou-se referência
definitiva nas interpretações de Chopin e Schumann. O crítico
Harold C. Schonberg, do New York Times, vencedor do Pulitzer, escreveu
que, apesar de sua carreira de mais de 50 anos e reconhecimento unânime,
Guiomar nunca alcançou a popularidade de Horowitz ou Rubinstein, em parte, segundo
ele, por sua recusa em dar entrevistas. Eis outro pecado capital no país da
autopromoção: o silêncio.
Espantou Paris logo no primeiro concerto.
Espantou Claude Debussy, membro da banca do Conservatório, que
descreveu seus “olhos embriagados de música”. Participou da Semana de
Arte Moderna de 1922, divulgou Villa-Lobos, recebeu a Ordem
Nacional do Mérito e a Legião de Honra da França.
Tocou no Carnegie Hall, foi presença constante nos palcos norte-americanos
entre 1915 e 1972, teve performances transmitidas pelo Ed Sullivan Show.
Chegou a ter o nome deturpado nos Estados Unidos “Gaiômar Novôas”, e aceitou
com um sorriso. Elegância também não costuma ser bem recompensada por aqui.
E há um detalhe que deveria, ao menos, despertar algum espanto: Guiomar Novaes inspirou Monteiro Lobato. Sim, foi ela a musa para a criação da Menina do Narizinho Arrebitado, personagem central do imaginário infantil brasileiro. A própria Guiomar contou isso em depoimento a Fernando Sabino, publicado no Jornal do Brasil em 1974. Conviveu com Lobato na infância, foi entrevistada por ele aos 19 anos, e entrou para a história da literatura nacional sem que o país pareça ter notado.

Guiomar Novaes não praticava oito horas por dia. Tocava uma hora, uma hora e meia, e depois “olhava para o céu”. Talvez aí esteja a chave de sua grandeza , e de nosso fracasso coletivo em preservá-la. O Brasil, definitivamente, não gosta de quem olha para o céu. Prefere quem pisa no chão do imediato, do raso, do descartável.
Enquanto isso, seguimos jogando nossa história em
caçambas, físicas ou simbólicas, e depois fingimos surpresa quando ela
desaparece. Guiomar Novaes não foi esquecida por acaso. Foi esquecida por
escolha. E isso diz muito mais sobre nós do que sobre ela.